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É possível prever o futuro das cidades?

Atualizado: 15 de jan.



Certa vez, um professor fez uma dinâmica com um balão. Solicitou que cada estudante, a plenos pulmões, assoprasse o balão até que o enchesse e, em seguida, os soltassem no ar. Quando todos os balões chegaram ao chão, provocou, enquanto os alunos assimilavam a dinâmica: vocês acham que seria possível antever exatamente onde cada balão cairia?


Todos se entreolharam. Passados alguns instantes, provocou novamente: “Desse mesmo modo, vocês acham que, mesmo se utilizássemos o melhor computador do mundo, conseguiríamos prever o comportamento das pessoas em uma cidade?”


De fato, antever com exatidão os fenômenos que ocorrem nas cidades parece algo inalcançável. Porém, isso não torna inútil a tarefa de criarmos modelos matemáticos ou computacionais para tentar compreender o funcionamento do ambiente urbano e antecipar possíveis tendências futuras.


Um exemplo disso são os pesquisadores que, utilizando análise de grandes bases de dados, buscam entender as leis gerais que regem as cidades, a denominada Física das Cidades: autores como Luis Bettencourt já demonstraram que, independente do país, há a tendência das cidades se tornarem mais eficientes em relação ao uso de infraestrutura conforme sua população aumenta. Apesar de não ser uma previsão exata, tal constatação já poderia servir como fundamentação para políticas públicas de planejamento a nível estadual ou federal.


Nesse sentido, Michael Batty e Paul Longley, no livro Fractal Cities, indicam que o ambiente construído parece sempre possuir padrões geométricos bastante característicos que também ocorrem em diversos outros sistemas naturais, como galáxias, moléculas, sistema nervoso. Tais padrões, denominados fractais, apesar de não serem previstos com exatidão, permitem estabelecer um comportamento esperado para o crescimento urbano, por exemplo, contribuindo para delimitar os cenários futuros a serem estudados por planejadores. Os fractais também são ferramentas importantes em diversas áreas — de estudos sobre as mudanças climáticas a pesquisas sobre o câncer, ajudando a caracterizar o crescimento de células mutantes.


O mesmo Michael Batty citado anteriormente diz, no livro Cities and Complexity, que previsões sobre o comportamento das cidades geralmente não esbarram em limitações tecnológicas, mas sim em nosso próprio conhecimento acerca de como funciona o ambiente urbano. Assim, os modelos são mais uma forma de experimentar hipóteses e continuamente aprender a partir das modificações nos resultados e não instrumentos que fornecerão as respostas definitivas sobre a vida, o universo e tudo mais. Prever o futuro ainda não é uma capacidade humana; entretanto, criar cenários para entender os fatos, é.


Coluna de autoria de Ellen Renata Bernardi e Guilherme Dalcin.






 

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