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Quem tem medo da inteligência artificial?

Aposto que muitos de nós sentiram um frio na espinha ao ver — pela primeira vez — o Chat-GPT ou o Dall-E produzindo um artefato com base em uma frase genérica. Muitos de nós devem ter relembrado clássicos do cinema como Blade Runner (1987), Matrix (1999), Inteligência Artificial (2001) e Ela (2013) — entre tantos outros possíveis de serem listados aqui — e se questionaram sobre o que, de fato, distinguiria a realidade da ficção a partir de agora. Além disso, outras preocupações começaram a surgir, como o futuro das nossas profissões e com a substituição do trabalho humano, fosse ele mecânico ou intelectual.


Pois bem, a inteligência artificial (I.A.) não é mais uma promessa do futuro. Ela já faz parte do nosso dia a dia (e já faz algum tempo). Alguns de nós já aproveitam os benefícios da modernidade, outros evitam o contato. O questionamento, enfim, se modificou: será que o uso da I.A. configura uma ameaça direta à espécie humana?


Segundo Yuval Noah Harari — sim, o autor de Sapiens! —, a linguagem é o sistema operacional da cultura humana. Da linguagem emerge o mito e a lei, os deuses e o dinheiro, a arte e a ciência, as amizades, as nações e, também, o código de computador. Mas se existe uma inteligência capaz de dominar a linguagem [áudio, texto, imagem] para elaborar produtos culturais, como será a experiência a partir de um prisma produzido por uma inteligência não-humana?


Segundo o referido autor, os seres humanos não possuem acesso direto à realidade: eles a experienciam por meio de um prisma cultural, elaborado a partir das experiências de cada sujeito. No entanto, em tom alarmista, Harari indaga: “se tivermos nossa realidade produzida a partir do prisma da I.A, o que significaria para os humanos viver em um mundo onde uma grande porcentagem de histórias, melodias, imagens, leis, políticas e ferramentas são moldadas por uma inteligência não-humana, que sabe explorar com uma eficiência sobre-humana as fraquezas, preconceitos e vícios da mente?”


Voltando ao tom cinéfilo que iniciamos, vimos em Oppenheimer (2023) que os cientistas envolvidos na descoberta da bomba atômica acreditavam que ela seria capaz de resolver todas as guerras existentes. Que essa arma seria a grande responsável pela paz universal, enfim. No entanto, sob a ótica do sociólogo Clóvis Moura, os físicos que trabalharam no Projeto Manhattan tiveram um drama de consciência muito claro após o bombardeio a Hiroshima e Nagasaki: a diferença entre o que eles pensavam ingenuamente a respeito de suas pesquisas e o que elas, de fato, representaram para a humanidade.


Harari não se posiciona abertamente contra a I.A. Entretanto, se mostra bastante crítico ao compará-la, justamente, à arma de guerra que destruiu as cidades japonesas: ele comenta que o potencial da I.A. é semelhante ao da bomba atômica, sim.

Aqui, provoco:


No momento em que optamos por entregar a criação de [novamente] histórias, melodias, imagens, leis, políticas e ferramentas para uma inteligência não-humana com uma eficiência sobre-humana, qual o nosso papel de atuarmos como ‘bons professores do conteúdo abordado’ e que fazem ‘os inputs adequados’ para que o resultado da I.A. seja coerente com o contexto humano?


Quais as consequências de entrega de uma multiplicidade de elementos que constituem a experiência humana como [novamente] histórias, melodias, imagens, leis, políticas e ferramentas para uma inteligência não-humana com capacidades sobre-humanas? E de que forma podemos usá-la para transformar positivamente o presente e imaginar novos futuros?


Referências:

HARARI, Yuval Noah; HARRIS, Tristan; RASKIN, Aza. You Can Have the Blue Pill or the Red Pill, and We’re Out of Blue Pills. The New York Times. 2023. Disponível aqui.

OPPENHEIMER. Direção: Christopher Nolan. Estados Unidos: Syncopy Inc. Atlas Entertainment, 2023.

MOURA, Clóvis. A sociologia posta em questão. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1978.


Coluna de autoria de Luciana Marson Fonseca e Maria Eduarda Kossatz Leal.


 

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