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Como indicadores urbanos ajudarão a descrever a recuperação de Porto Alegre

Em colunas anteriores, discutimos sobre como o uso de indicadores para monitorar o desempenho das cidades pode contribuir para tornar a administração pública mais responsiva. Ilustramos essa discussão com exemplos sobre os temas de acesso habitacional, trabalho e vegetação urbana, mostrando como se pode ampliar a percepção sobre a eficiência urbana a partir da análise de dados. Nesse sentido, o episódio das enchentes no Rio Grande do Sul tem mostrado a importância do uso de dados para esclarecer o que ocorre nas cidades, como foi feito por iniciativas como as plataformas criadas pela UFRGS e pelo Place para compartilhamento de informações.


Os indicadores que publicamos até o mês de abril no Observatório do Instituto Cidades Responsivas refletem o estado de Porto Alegre previamente à cheia. Assim, imagina-se que a comparação de tais resultados com os que serão calculados nos próximos meses contribuirá para descrever o processo de recuperação da cidade. Por exemplo, na próxima atualização do indicador de acesso habitacional – que relaciona o preço mediano dos imóveis com a renda média da população – o resultado calculado para Porto Alegre será influenciado pelas dinâmicas que estão se desenrolando na cidade neste momento, como o provável aumento da demanda por habitações, composta tanto por quem teve sua casa destruída quanto por aqueles que agora desejam residir em áreas mais altas na cidade. Por outro lado, com a inutilização de parte dos imóveis afetados pelas cheias, o estoque de moradias à venda possivelmente diminuirá, resultando em um cenário em que uma crescente demanda se depara com uma diminuição da oferta, o que tende a, no curto prazo, acarretar o aumento dos valores médios dos imóveis à venda.


Mesmo que eventualmente tal alta dos preços não seja drástica, deve-se considerar que, devido às perdas causadas em empresas e indústrias, a cidade possa estar diante de um cenário econômico de redução da renda domiciliar média, o que contribuiria para tornar a compra de moradias menos acessível para os habitantes locais. Visto que, nos dois levantamentos prévios do índice de acesso habitacional, Porto Alegre era a cidade em que o valor mediano das habitações era o mais barato em relação à renda domiciliar local, espera-se que esse cenário seja significativamente alterado no próximo levantamento.


Para os outros dois indicadores, pode-se também prever uma alta variação nos resultados de Porto Alegre. Quanto ao indicador de vegetação urbana, que calcula a densidade média de vegetação próxima a cada domicílio e estabelecimento não residencial, espera-se uma piora nos resultados, imaginando que a água da enchente – junto com os detritos e o volume de terra que ela trouxe consigo – teria prejudicado a massa verde existente. Já para o indicador de trabalho e local de moradia – que calcula o número de empregos ocupados por habitantes que não residem na cidade – ainda é difícil de prever exatamente de que forma ele será alterado, visto que deverão ocorrer significativas movimentações populacionais e de empresas nos municípios afetados, tornando impossível que se defina com confiança quais serão as configurações finais dessas dinâmicas.


As atualizações de tais análises serão publicadas a partir do próximo mês, sendo complementadas pela divulgação de um indicador de mobilidade das capitais brasileiras. Espera-se que esse conjunto de informações possa contribuir para que, em colunas futuras, possamos dar respostas às especulações lançadas neste texto.


Guilherme Dalcin


Publicado originalmente na Coluna do Caos Planejado




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