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Pensar a cidade: de onde viemos e para onde estamos indo?


A organização concreta da cidade sempre foi reflexo da sua sociedade, de modo que a arquitetura e o urbanismo são apontados por muitos pesquisadores como uma espécie de “sociologia aplicada”.


Quando deixamos de ser nômades e passamos a fixar território, nossa organização espacial já indicava nossas lógicas sociais. Desde a antiga Mesopotâmia até o final do império Romano as cidades eram o centro político, que se configurava no interior de muros erguidos para a defesa de seu excedente de produção. Com o final do império Romano, a cidade medieval assume um novo papel, no qual o protagonismo é comercial, e ela passa a se configurar como um ponto de encontro de demandas e oportunidades.


No século XVIII, a revolução industrial produz uma grande cisão nos modos de vida, e a cidade passa a ser a concentração dos meios de produção e toma proporções nunca antes imaginadas. Em sessenta anos as linhas férreas no Reino Unido se expandem numa proporção assustadora e os primeiros carros dividem os engarrafamentos com cavalos e carruagens em Londres.

Como resposta ao caos dos centros urbanos, surge a ciência do urbanismo. Os séculos XIX e XX são marcados por ordenação e controle. Na Europa, Haussmann e Cerdà criam planos de urbanização para Paris e Barcelona, respectivamente. Ebenezer Howard publica esquemas de organização para as chamadas “Garden Cities of Tomorrow” e a lógica da Cidade Moderna é consagrada pela Carta de Atenas.


No Brasil a ideia de ordem se materializa no plano piloto para Brasília e outras cidades buscam adaptar-se à organização moderna. Em Porto Alegre, o anteprojeto de planificação desenvolvido por Edvaldo Paiva e Demétrio Ribeiro, organizou a cidade em quatro funções: circular, habitar, trabalhar e cultivar o corpo e o espírito. Um lugar para cada coisa.


A cidade contemporânea surge como um lugar de lugares, concretos e abstratos, que pode ser encarado como um cenário de conflitos e de oportunidades. Em meados do século XX, os estudos acerca da teoria da complexidade aplicada ao urbanismo ancoram um novo paradigma para o planejamento urbano: a visão da cidade como máquina, regida por ações top-down, passa a ser substituída por uma lógica que entende a cidade como um sistema biológico, capaz de se auto-organizar por meio de ações botton-up.


Como de costume, a tecnologia alavanca as transformações e a revolução tecnológica que vivemos hoje é digital e informacional. Os modelos computacionais urbanos emergem como ferramentas possíveis ao “novo planejamento” — eles não podem prever o futuro, mas nos preparam melhor para lidar com ele. Há uma nova linha de corte acerca do planejamento urbano: como planejar para um cenário em constante e veloz transformação, alinhando-se às dinâmicas urbanas? Até que ponto é coerente fixar regras e até que ponto podemos flexibilizá-las? Como encontrar esse equilíbrio?


Dos arranjos urbanos contidos e controláveis, passamos a vivenciar cidades com bordas difusas, baixo controle e alta complexidade. Passamos pelo desenho manual, pelo desenho digital, até o ponto que se é possível “desenhar” por meio de linhas de código. Trata-se de “desenhar” um sistema dinâmico. Ou ainda, como escutei Michael Batty falar no último sábado para nosso Instituto, “estamos acostumados a pensar que a forma segue a função, talvez seja preciso pensar que a função segue a função”. Pois, já faz algum tempo que me pergunto o que diria Vitrúvio, se apresentasse sua tríade no século XXI


Texto de autoria de Luciana Marson Fonseca

 

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